Wednesday, December 11, 2002

O Pior Encontro Casual

O pior encontro casual da noite ainda é o do homem autobiográfico. Chega, senta e começa a crônica de si mesmo: "Acordo às sete da manhã e a primeira coisa que faço é tomar o meu bom chuveiro". Como são desprezíveis as pessoas que falam no "bom chuveiro!" E segue o parceiro: "Depois peço os jornais, sento à mesa e tomo meu café reforçado". Ah, a pena de morte, para as pessoas que tomam "café reforçado!" E a explanação continua: "Nos jornais, vocês me desculpem mas, a mim, só interessa o artigo de Macedo Soares e as histórias em quadrinhos". Nessa altura o autobiográfico procura colocar-se em dois planos, que lhe ficam muito bem: o que ele julga de seriedade política (Macedo) e o outro, de folgazante espiritual (histórias em quadrinhos).

E vai daí para outra modesta homenagem a si mesmo: "Aí, então, é que vou me vestir. Quanto à roupa, nunca liguei muito, mas, camisa e cueca, tenha paciência, eu mudo todo dia". O "tenha paciência" é porque está absolutamente certo de que estamos com a camisa e a cueca de ontem. "Acordo minha senhora, pergunto se ela quer alguma coisa e vou para o escritório". Gente que chama a mulher de "minha senhora" está sempre pensando que: não acreditamos que eles sejam casados no civil e no religioso; no fundo, desconfiamos de que sua mulher lhe seja infiel. E vai adiante o mal-feliz: "Só aí vou para o escritório, mas nunca antes de passar no jornal, para ver se há alguma coisa". Esse "passar no jornal" é um pouco difícil de explicar. Mas todo homem banal tem muita vergonha de não ser jornalista e alude sempre a um jornal, do qual tem duas ações ou pertence a um primo, ou amigo íntimo.

Vai por aí contando sua vidinha, que termina, melancolicamente, com esta frase: "À noite, eu sou da família!". Bonito! "Visto meu pijama, janto, deito no sofá e vou ver a televisão, com as crianças em cima de mim". Está aí o retrato perfeito do cretino nacional. E, o que é triste, além de numeroso, está em toda parte. Que horror me causam as pessoas do "bom chuveiro", do "café reforçado", os de "Macedo Soares e das histórias em quadrinhos" (os que gostam só de Macedo Soares ou só de histórias em quadrinhos são ótimos), que precisam dizer que mudam camisa e cueca todos os dias, as que citam "sua senhora" e os que "passam no jornal, antes de ir para o escritório". Nossa maior repulsa, ainda, por quem janta de pijama e deita no sofá, com as crianças em cima. Ah, essa gente me procura tanto!

19/10/1959
Uma Velhinha
ou A Velhinha do Westfália

Quem me dera um pouco de poesia, esta manhã, de simplicidade, ao menos para descrever a velhinha do Westfália! É uma velhinha dos seus setenta anos, que chega todos os dias ao Westfália (dez e meia, onze horas), e tudo daquele momento em diante começa a girar em torno dela. Tudo é para ela. Quem nunca antes a viu, chama o garçom e pergunta quem ela é. Saberá, então, que se trata de uma velhinha "de muito valor", professora de inglês, francês e alemão, mas "uma grande criadora de casos".

Não é preciso perguntar de que espécie de casos, porque, um minuto depois, já a velhinha abre sua mala de James Bond, de onde retira, para começar, um copo de prata, em seguida, um guardanapo, com o qual começa a limpar o copo de prata, meticulosamente, por dentro e por fora. Volta à mala e sai lá de dentro com uma faca, um garfo e uma colher, também de prata. Por último o prato, a única peça que não é de prata. Enquanto asseia as "armas" com que vai comer, chama o garçom e manda que leve os talheres e a louça da casa. Um gesto soberbo de repulsa.

O garçom (brasileiro) tenta dizer alguma coisa amável, mas ela repele, por considerar (tinha razão) a pronúncia defeituosa. E diz, em francês, que é uma pena aquele homem tentar dizer todo dia a mesma coisa e nunca acertar. Olha-nos e sorri, absolutamente certa de que seu espetáculo está agradando. Pede um filet e recomenda que seja mais bem do que malpassado. Recomenda pressa, enquanto bebe dois copos de água mineral. Vem o filet e ela, num resmungo, manda voltar, porque está cru. Vai o filet, volta o filet e ela o devolve mais uma vez alegando que está assado de mais. Vem um novo filet e ela resolve aceitar, mas, antes, faz com os ombros um protesto de resignação.

Pela descrição, vocês irão supor que essa velhinha é insuportável. Uma chata. Mas não. É um encanto. Podia ser avó da Grace Kelly. Uma mulher que luta o tempo inteiro pelos seus gostos. Não negocia sua comodidade, seu conforto. Não confia nas louças e nos talheres daquele restaurante de aparência limpíssima. Paciência, traz de sua casa, lavados por ela, a louça, os talheres e o copo de prata. Um dia o garçom lhe dirá um palavrão? Não acredito. A velhinha tão bela e frágil por fora, magrinha como ela é, se a gente abrir, vai ver tem um homem dentro. Um homem solitário, que sabe o que quer e não cede "isso" de sua magnífica solidão.


16/10/1964


Nota publicada pelos editores de O Jornal na edição do dia 16/10/64, página 3 do 2° Caderno, coluna “Jornal de Antônio Maria”: "Anteontem à tarde, quando escrevia esta crônica para O Jornal, talvez a última de sua agitada vida de impenitente amante da beleza e de inimigo irredutível das coisas convencionais, Antônio Maria suplicava por um pouco de poesia para descrever mais uma figura humana — o seu assunto predileto. Não tinha por que suplicar De poesia era um Midas, um perdulário Midas que em tudo que tocava convertia em lirismo, mesmo nos amargos momentos em que descia do devaneio para ásperos reencontros com os raros inimigos que encontrou, na música, nas letras de sambas e canções e em escassos distúrbios políticos. Aí está a última crônica de Antônio Maria. O seu último jornal. Porque ele tinha neste recanto de página um verdadeiro jornal próprio. Feito à sua feição, indiferente às críticas que provocava, alegre para os seus milhares de leitores, refletindo a sua irrequieta e não raro incompreendida personalidade. Aqui cantava a sua poesia e opinava sobre tudo e sobre todos. É com tristeza que publicamos essa edição do Jornal de Antônio Maria. Some daqui um traço constante de alegria, de exaltação à beleza e de exuberância humana. Todos sentimos profundamente a sua irremediável partida. Os seus companheiros de jornalismo, os seus leitores, todos".


Meu blog foi citado no/na Idiossincrasia.
É melhor atualizá-lo.

Monday, November 18, 2002

Post do Editor

É com um imenso e inenarrável prazer que comprei ontem a noite no Letras e Expressões do Leblon, o tão esperado "Diário de Antônio Maria" pela justa quantia de vinte reais. Não só me deleitei ao ver finalmente o livro na minha mão, quando após comprá-lo e conversar com o balconista sobre as duras penas que me levaram à estar ali depois de uma semana de peregrinação, quando ele me revelou outra coisa: "As Crônicas de Antônio Maria - bendita sejam as moças" por vinte e quatro merecidos reais.

Estou encantado e absorto no texto do diário e com uma ambígua e louca vontade de terminá-lo logo e não terminá-lo jamais. A idéia de ter outro livro de Maria com textos inéditos em livros ali me esperando na mesa é mui tentadora, porém a concepção de que esses, talvez, sejam os últimos textos que lerei do mestre, me enche de uma melancolia sem fim. Não queria nunca deixar de ler Antônio Maria. Leio no seu texto o meu e na sua vida, um pouco da minha. Não sou gordo, mulato, casado e nem tenho filhos. Não escrevo profissionalmente, não sou chegado à comida nem à bebida. Não conheço nem conheci Miss Brasil ou socialites, porém sinto-me tão perto deste gênio, que o tempo parece regredir as vezes e me pego sonhando acordado, olhando pela janela... procurando nas janelas do Edifício Orânia, uma improvável e impossível pista que me mostraria em qual delas Antônio Maria se espichava para ver o mar.

O por quê disso eu não sei. Só sei que sinto uma profunda tristeza em pensar que nunca conheci e nunca poderei apertar-lhe a mão, olhar-lhe nos olhos e trocar um dedo de prosa. Ora! Eu daria um dedo meu por um dedo de prosa com esse pernambucano mais carioca que pisou nesse chão.

Salve, Maria!

Tuesday, November 12, 2002

Pois é. Dizem que meu diário está aí pelas livrarias.
Vi seu registro nos computadores de algumas, mas o livro mesmo, ninguém tem, ninguém viu, ninguém lembra de ter sido vendido.
Estou fadado ao esquecimento mesmo.

Thursday, October 31, 2002

Do Diário IV (com o não consultado e muito bem-vindo apoio de O Menino)

13 de março de 1957

Como já anotei, dormi pouquíssimo ontem. No jornal, só Deus sabe como escrevi; o mais frivolamente possível, sobre os artistas de Hollywood e, especialmente, sobre Anita Ekberg.

Saí de casa, à noite, sob grande tensão nervosa. Quando me vestia, Mariinha queixou-se da minha vida que, confesso, é desregrada. Estava disposta a falar muito, mas eu estava em cima da hora da rádio.

Isto de Mariinha me interpelar dá-me uma angústia terrível. Ela acha que eu a escondo, por um motivo que ela gostaria de conhecer; não a mostro em público. Não lhe sei explicar. Mas tenho certeza de que, se saíssemos juntos, nossa vida se infernizaria. Acabaríamos separados. É melhor que cointinuemos como estamos. Eu a amo, além de qualquer formalidade.

Reconheço: sou de um solteirismo indomável. Se proceder como casado, acabarei por desejar ficar sozinho, de vez – o que seria incômodo, trabalhoso, sem graça e péssimo para a educação, ou melhor, formação de Rita e Léo.

Depois da rádio fui parar no Sacha’s. Estava exausto e deprimido. Pensar que Mariinha talvez voltasse ao assunto me dava uma grande preguiça. Bebi, então. Muito. Mas não consegui passar de mim. Fiquei o mesmo. Mais tarde. Veio Paulinho Mendes Campos. Estava sem graça e contava histórias intermináveis. Algumas das que já me contara. Disse que uma senhora rica da UDN discutira com ele sobre mim. Dizia que eu costumava oferecer dinheiros altíssimos às mulheres. Presentes caríssimos, para conquistá-las. Pobre de mim.

Veio depois o Di. Estava bêbado (menos que Paulinho). Voltava de uma “suruba”
oferecida por Oscar Niemeyer aos arquitetos que vieram, da Europa, julgar o plano urbanístico de Brasília. Dez mulheres nuas. Di desenhou duas delas. Um desenho lindo, que gostaria de ter ficado com ele. Chegou, a seguir, o Braga. Encheu o copo, sentou e dormiu. Disse antes que sua amada estava linda, no Country. Mais tarde vieram Lilian e Joaquim Xavier da Silveira, Marise e Adolfo, Van Heflin e a mulher Lana Turner e Luiz dos Santos Jacinto. Lilian mostro-se muito contente em ver-me. Veio buscar-me para sua mesa. Marise, como sempre, muito amável. A mulher de Van Heflin disse horrores a Eugenio Carlos, que persegue os artistas também. Em seguida convidou-me para dançar. Na terceira volta, eu já estava cansado e com calor. Queria voltar para a minha mesa, que era a mais refrigerada da casa. Pedi (em português) que Joaquim Xavier da Silveira me levasse a mulher do Helfin. Ele socorreu-me. Ela entendeu. Na despedida, beijou-me a boca. Um beijo fraterno.

Devo ser um poço de defeitos. Mas, de certo modo estou muito satisfeito comigo. Fernando Aguinaga está espalhando que dormiu com Anita Ekiberg e, por isso, o casal se separou. Rosinha Pagã queixa-se de que estão espalhando que Antony se separou de Anita por causa dela (Rosinha). “É uma infâmia – diz-me quase dramática. Eugenio Carlos inventou que dormiu com Beverly ( não lhe sei o outro nome) e deu a entender que fez uma suruba com todas elas.Tenho pena dessa gente, que procura enganar os outro. Como se enganam! Posso estar podre de blasesmo, mas esses artistas de cinema não afetam minha vida em nada. Se eles me procurassem, ficaria sempre onde estava. Lilian e Marise falaram bem de mim a Van Heflin. Contaram-lhe que eu dissera que ele, Van Henflin, do grupo, era o que tinha mais valor humano. Gosto disso. Abraçou-me. Fez-me olhares de cumplicidade.

Houve pouco mais do que isso. Voltei para casa às 6. Léo acabara de fazer ginástica e tomava banho frio.

Rita bebia leite e esperava o ônibus do colégio. Eu me sentia cansado e deitei-me no sofá do escritório. Não quis acordar Mariinha. Dormi, sem pedir que me acordassem em hora nenhuma. Pouco me importava escrever ou não. Dormi, com o sol entrando pela janela. Um sol sem força – o dia estava nublado. Deixei-me dormir por conta dos muitos sacrifícios que já fiz pelo outros.
Do Diário III (com o não consultado apoio de O Menino)

11 de março de 1957

Escrevi 10 páginas de humorismo para rádio. Com o desgosto de sempre. Não me acho engraçado. Para o rádio, ainda uma crônica sobre falta d’água, lida po Luiz Jatobá. Escrevi para O Globo umas notas tomadas em Petrópolis. Eis alguns trechos, que me parecem conter alguma verdade: “Nenhuma emoção é a mais forte que a de entrar no quarto da amante que dorme. Sentir-lhe o cheiro e o calor no ar do quarto. Deitar ao seu lado, se possível, bêbado. Tocar-lhe a pele poderosa. Nela, encontra intensificação. E possuí-la do modo mais gostoso, sem outras palavras que não sejam as dos rudes vivas do amor. Depois, dormir como na morte, para despertar ao peso dos deveres aflitos e cumprir.

O mistério indecifrável de uma mulher a que se volta adiante:

“Só se ama uma mulher quando lhe tememos a pelo e o cheiro. Quando a idéia de sabê-la em outra cama nos torna capazes de matá-la ou perdoá-la. Geralmente, matá-la e perdoá-la são duas coragens difíceis. Fica-se simplesmente...”

Depois:

“Ama-se, angustiadamente, o vestido pendurado da amante ausente. O vestido íntimo e caseiro. E haverá mais verdade na companhia de tal vestido (morto como um vestido) que, adiante, nos braços de uma nova mulher. Os sentimentos das nossa constantes paixões! Enlevo, carinho, generosidade, sacrifício. Infelizmente, porém, por mais que se tenha feito para negá-lo, o verdadeiro amor é aquele que nos abrange e nos vence como um vício. Nunca se diga que o amor é fácil, antes de vivê-lo como um vício,”

Ainda:

“A carne não mente. Apesar da má companhia em que vive, ainda não chegou à perfeição desse erro. Vivamos, em vez das palavras. Seremos livres e completos.”

“A água é bela e jovem. Ninguém a envelhecerá. Ninguém a prenderá para sempre.”

“Quantos séculos e quantos poetas deverão passar, para que se digam todas as verdades?

Quando se assistirá toda a intimidade de um nosso semelhante, sem que ele e nós nos sensibilizemos? Em que dia se será SÓ, em companhia de outra pessoa?

O homem vive em defesa constante – tanto que só se saberá verdadeiramente de um homem depois de morto, quando forem vestir.”

Depois, escrevi sobre a preguiça e acho que não disse nada que fosse ao menos agradável de ler. SOU UM HOMEM PREGUIÇOSO. E , talvez, para justificar-me, acabei a tal nota neste tom meio espalhafatoso:

“Só me exalta a posse legítima e afim.”

Maria Rita me alegrou, porque me esperou com uma “exposição de seus quadros”. Desenhou tudo sobre influência de Miró. Contou-me (rindo muito) que a freira do colégio (São Paulo) lhe exigiu, para traje de ginástica, uns calções até aos tornozelos, acabando em elástico. Ela, Maria Rita, deveria arregaçá-los até os joelhos, porque (Maria Rita imita a freira) “Vai ficar muito gracioso.”

Alegra-me isto da minha filha estar começando a saber achar graça.


Saí à noite e paguei CR$ 11.500,00 de dívidas. Bebi muito e de graça. João Condé animou-me a publicar um livro de crônicas. José Olympio o editaria. Pela primeira vez animei-me a selecionar velhas crônicas. Mas terei que reescrevê-las. Não suporto ler o que escrevi há uma semana. Sou preguiçoso e, por isso, humilde. Certamente, esse livro ainda não será agora.

Caí, como sempre, no Sacha’s. Lá não ia há uns 15 dias. Bebi numa mesa de deputados da UDN. Nenhum tinha o menor interesse para mim. Lá estava Vitor Costa, um homemtriste e vago. Quero-lhe bem.

Fui beber na mesa en que estavam Lana Turner, Jorginho Guinle e Luiz Santos Jacinto. Lana Turner está envelhecida e sabe disso, porque se defende muito, fazendo olhos, bocas e perfis. Mas, ainda assim é uma mulher. Jorginho me disse (com um sem-entusiasmo muito bem fingido) que já dormira com ela. Talvez seja
Verdade. Em seu lugar ,eu não contaria. (Eu acho que contaria – perdão.) Mas , se contasse, seria com indisfarçável orgulho. Não saberia comer uma mulher de certa importância sem comer-lhe o nome, com alguma honra. Mas meu encontro com Lana Turner não chegou, ao menos, a ser agradável.

Depois, à minha esquerda, sentarm-se Anita Ekberg, o marido e um brasileiro que falava inglês. Eu estava bêbado. Só vi mesmo que era Anita deois que ela saiu. É um mulherão. Uma enfermeiraça. Mesmo assim, bela.

O brasileiro que falava inglês descompôs o maître e os garçons. Por nada . Queria brilhar. Pagou a nota, tirando muitos contos de réis do bolso. Olhava-me, se quando em quando, para ver que impressão me estava causando. Um cretino a mais.

Jantei com o Barão Schiller. Estava triste porque perdera dinheiro no jogo. Mais ainda porque , como sempre, não tinha mulher. Levei-o a casa. No caminho, achou-me nervoso. Eu não estava nervoso... e sim bêbado, sem nenhuma infelicidade especial.

Antes, sentara à mesa com Didu, Tereza, Dirceu Fontoura, Dana Mendonça e Ari de Castro. J. Guinle, havia pouco , me dizia Ter dormido com Lana Turner.

Gente boba e vazia. Vaidosos, frívolos, ricos. Gosto, porém, de conhecê-los casa vez mais, para ver até onde chega sua organizadíssima miséria humana.

Lamento, agora, não Ter começado estas notas há mais tempo. E mais ainda, saber que irei interrompê-las um dia.

A melhor impressão dessa noite quem me causou foi Célia, filha de Odilon Braga. Bonita, queimada de sol, mulher. Estava de branco.

Queixou-se de que eu nunca a citei em minhas crônicas. Gostaria de que se queixasse por brincadeira. Porque será que as pessoas, as mais inteligentes, gostam tanto de ler seus nomes no jornal. Se fosse por um motivo mais digno-um livro, um quadro, uma música - eu entenderia, ou melhor, eu entendo e acho normal. Mas a simples citação, sem nada de melhor que a justifique? Compreenderia ainda se minha citação fosse consagratória. Mas não, sou um cronista, nada mais que um cronista frívolo; quer queira, quer não, pertencente à pior safra do jornalismo brasileiro. Enfim, que seja tudo pelo amor de Deus.

Com exceção da quixa, Célia Braga me fez muito bem.
Mais um pouco do No Menino, quem vem me dado uma força sem me cobrar nada. Não tive de trocar isso nem por uma crítica literária. De graça mesmo. Um deleite.

Entre os dias 12 de março e 19 de abril de 1957, Antônio Maria registrou num diário os acontecimentos de sua vida naquele período. As pequenas alegrias diante dos filhos, as dificuldades financeiras, a paixão pelas mulheres, as perplexidades da alma, o que ia pelos bastidores do mundo artístico e mais algumas ótima fofocas da vida noturna do Rio. Tudo escrito à tinta, com uma letra nervosa, caída para a direita, em dois cadernos escolares pautados. Por um pequeno período, logo após a morte de Maria, em 15 de outubro de 1964, os dois cadernos ficaram com uma namorada. Mais tarde eles foram anexados aos arquivos do jornalista João Condé. Recentemente passaram à família do autor, que os cedeu para esta publicação.

Antônio Maria escreveu quase uma centena de músicas e seu nome é fundamental para quem pretende compreender a MPB na década de 50, época em que, através de um samba-canção sofisticado, cujo maior clássico é Ninguém me ama, ele deu um padrão novo ao drama amoroso nacional. Sofria-se, mas quanto bom gosto! Nos jornais e revistas, publicou mais de 3 mil crônicas sobre assuntos tão diversos quanto as noitadas na boate Sacha's, central da badalação carioca, e o último penteado de Marta Rocha. Ninguém percebeu melhor, através de relatos que uniam a delicadeza literária e a fundamental reportagem de fatos e acontecimentos, os anos dourados de Copacabana. No rádio e televisão brilhou com piadas para esquetes e material jornalístico. Algumas das mais célebres perguntas do programa Preto no Branco, da TV Rio ("Sr. Jânio Quadros, é verdade que o senhor ficou estrábico porque tem um olho em Moscou e outro no capital americano?") saíram de sua máquina. Estas 3.335 linhas de seus dois cadernos, de 145 páginas com 23 linhas, são as únicas que ainda não haviam chegado ao público.

O Diário foi escrito no período em que ele morava com a mulher, Mariinha, e os dois filhos, Antônio Maria Filho e Maria Rita, na Rua Nina Ribeiro, no Jardim Botânico. Logo nas primeiras páginas, Maria diz estar tomando cuidado para não posar. Não queria cair "no erro da preocupação literária". Achava-se um escravo de seus dois principais contratantes em 1957. Para o jornal O Globo, escrevia uma crônica de abertura e as notinhas da coluna "Mesa de Pista", sobre o movimento artístico e comportamental na noite do Rio. Para a Rádio Mayrink Veiga, produzia piadas para os humorísticos da faixa das 20h30, como o Miss Campeonato, e o texto do jornalístico "Cassio Muniz, o cronista e o mundo", lido pelo locutor Luís Jatobá. Com as anotações do Diário, dizia experimentar "uma nova sensação: de liberdade". Era, justamente, o que não sentia nos outros textos, "sob contrato, com hora certa, sem assunto, sem vontade, sem emoção".

As páginas que se seguem contêm alguns dos melhores momentos do mais puro Antônio Maria, o cronista que falou como poucos da relação amorosa e da angústia existencial . São 39 dias de sentimentos à flor da pele, a batalha de uma vocação explosiva para a solidão e a busca incansável da mulher que vai tirá-lo daquela rotina depressiva de bares, amizades fingidas e muita conversa vazia. O Diário acaba significativamente numa Sexta-Feira Santa, sem qualquer sinal de que a ressurreição desse calvário – estou gordo, vou morrer cedo, minha casa é feia, me sinto só, preciso de alguém mais forte – estivesse por vir no domingo seguinte ou em qualquer outro. Numa noite dormiu jogado na porta do Sacha's depois de uma sessão de vômitos. Poucos dias se passam sem que faça uma anotação de que precisa saldar alguma dívida financeira. Não era fácil ser Antônio Maria ou viver com ele, mas a sorte, pelo menos visto de agora, é que o pernambucano tinha estilo como poucos e se lanhava com o chicote do humor e da auto-ironia. Um dia, por exemplo, olha para o lado e nota a infelicidade da esposa: "Mariinha anda triste", escreveu no Diário. "Acho que ser minha mulher acaba com a vida de qualquer pessoa."

Logo no início das anotações Maria diz que estava escrevendo para si próprio. Mais adiante revela ter prometido que deixaria duas amigas darem uma olhada, o que, admite, poderia ter mexido na sua maneira de escrever. Acha que começou a "posar" e, como sempre, balançou o chicote no próprio lombo. "Não cheguei a fazer, conscientemente, nada especial para ninguém, mas devo ter-me feito especial. Ao menos um pouco. Não posso esquecer-me nunca de que sou vaidoso". A publicação do Diário de Antônio Maria acontece depois de muita reflexão entre a família e editores. São revelações íntimas. Fortes. Alguns personagens, Maria identificou apenas pelas iniciais. Ele pode até ter sentido o peso dos possíveis olhos femininos em suas linhas e colocado uma vírgula qualquer por estilo. Mas, que ninguém se engane, o autor em questão tem um conceito muito peculiar de vaidade. Na verdade, despe-se de todas suas pompas públicas e, num striptease inédito na literatura brasileira, está nu. Em pelo. E não se acha nem um pouco bonito: "Se não fizer uma limpeza de pele diária em meu rosto, encho-me de um sebo detestável. A carne é triste; a minha, pelo menos, é tristíssima".

Antônio Maria, por mais que se conflitasse no mostro-não mostro dessas linhas, não tinha direito absoluto sobre elas. Seu talento é um patrimônio nacional. Não seria justo deixar no fundo da gaveta um depoimento tão sensível dos seus tormentos, de sua sensibilidade, de sua maneira de encarar os relacionamentos – e qualquer um que já tenha lido suas crônicas, ouvido as canções, vai compreender que este Diário é fundamental para a compreensão do quanto havia de sinceridade na sua obra pública. Jamais posou. Perdeu amigos por causa disso. Quem achava exagerado o texto de "ninguém me ama, ninguém me quer", vai entender agora: tudo verdade. Pelo menos ele se sentia assim o tempo todo, até mesmo quando falava consigo próprio. Não era para vender disco. Maria podia até estar sempre cercado de lindas mulheres, e graças a um grande charme pessoal, uma lábia envolvente, namorou as mais disputadas de seu tempo, mas – vai entender a sombra que se esconde nos corações humanos! – era inteligente demais para se achar com essa bola toda.

Este Diário funciona também como um making-of da produção de um jornalista que, em meados do século passado, junto com Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, encheu de sagacidade, leveza e bom humor as páginas dos jornais e revistas do Rio. Eram os cronistas da alma carioca. As anotações de Maria revelam como nasciam suas crônicas noturnas, os bastidores de seus dramas passionais. Neste março-abril de 1957, ele estava no auge do sucesso na imprensa. Por sorte nossa, além de se relacionar com dezenas de personalidades, vamos encontrá-lo no meio de uma polêmica sobre a autoria do Ninguém me ama, que ele destrincha no Diário com detalhes saborosos, nomeando como vilões personagens que costumam ser celebrados como heróis do rádio e da MPB.

Maria morreu como previu, cedo. No dia 15 de outubro de 1964. Aos 43 anos, fulminado por um terceiro ataque cardíaco numa calçada de Copacabana, cenário principal de suas crônicas. Às 3h15, título de uma de suas músicas. Morreu quando ainda era inédito em livro – e este é mais um dos motivos que tornam o lançamento destes textos uma necessidade urgente. As suas três antologias de crônicas hoje são disputadas com vigor nos sebos. Todas esgotadas. O Diário cumpre essa função também. Apresenta Antônio Maria às novas gerações e de uma maneira especial, não só pelo formato e originalidade do projeto, mas por flagrar um mestre do texto confessional, um dos pilares que identificam a crônica carioca, em momento de ênfase divina e despudoradamente radical. Mas sem essa de Meu Querido Diário! Melhor seria Meu Sofrido Diário! Trata-se de Antônio Maria em estado bruto, o cardispliscente como se anunciava, sempre desdenhando com muito estilo da fragilidade do próprio coração.

Não podia ficar trancada no criado mudo.

Wednesday, October 30, 2002

Deu No Menino

“São 39 dias de sentimentos à flor da pele” , diz na apresentação do inédito Diário de Antônio Maria, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, colunista de NoMínimo. Os dois cadernos com 3.335 linhas escritas à mão entre os dias 12 de março e 19 de abril de 1957 ficaram com uma namorada depois de sua morte aos 43 anos no dia 15 de março de 1964 e só agora estão sendo publicados na forma de livro pela Editora Record. Cronista prolífico, autor de mais de uma centena de músicas (seu grande clássico é o hino da dor-de-cotovelo “Ninguém me ama”), ele conta no Diário o calvário destes dias. Sintomaticamente, encerra o Diário numa Sexta-feira Santa. Os dias 11 e 13 de março descrevem aquela “rotina depressiva de bares, amizades fingidas e muita conversa vazia.” No dia 13, relata a descrição feita pelo pintor Di Cavalcanti de uma “suruba” promovida pelo arquiteto Oscar Niemeyer. - Flávio Pinheiro

Friday, October 25, 2002

Do Diário II

Chovia igual a hoje, quando fomos ver a casa onde viveu Van Gogh. Anver-sur-l'Oise. O domingo cinzento. A praça. As mulheres passando para a missa. A caminho do cemitério, uma velha igreja, onde fomos fotografados, "sorrindo para a nossa objetiva". O cemitério e, lado a lado, Téo e Vicente. Algumas flores mortas. Além, o muro e o trigal, onde o artista se matou.
Voltamos à casa. O pequeno quarto onde Van Gogh dormia dava para um muro cinzento e sujo. A cadeira. Aquela cadeira, que ele pintou tantas vezes.
Eu e Cícero Dias. Cícero, lendo um jornal, ria sem parar, porque um casque-bleu tinha sido comido, via oral, por um africano. Levantei-me e pedi à patronme que me vendesse três fotografias em cores. Ela começou a rir. Em meu triste francês, tinha lhe pedido três fotografias "em cólera".
Voltamos a Paris, no anoitecer. Chovia igual a hoje e o porteiro do hotel me esperava com um telegrama. De amor ou de morte? De amor. Aquele amor de que se fez a casa, desde o barbante, que lhe desenhou o formato.
Recebo uma cartinha de Dona Diva, a voz que chama, a mão que se estende nos meus momentos suicidas. "Soube ter estado você doente. Fico muito cuidadosa sabendo você aí tão sem mim. Rogo encarecidamente, quando se sentir doente, vir se tratar aqui. Os médicos são meus amigos de infância, e sua velha mãe, também, sua enfermeira de infância."
Mentira, Dona Diva, minha saúde é tanta que a farmácia aqui de Fernando Mendes foi à falência. Tinha sido aberta em minha intenção. Muitos beijos.

Nota: Peço aos leitores desta crônica não me perguntarem se ando triste, ou se ao escrevê-la estive triste. Há uma grande confusão entre seriedade e tristeza. Eu me considero um homem sério, que encontra graves dificuldades para viver num mundo onde é preciso fazer graça. Triste é aquele que conta anedotas.

(Terça, 13/10/1964)

Thursday, October 24, 2002

Do Diário I

"Os homens tristes, geralmente, fazem graça."- Antia Marônio


Já esperava. A continuação da chuva iria trazer uma porção de lembranças. As que envelhecem.
Chovia assim, quando fizemos a casa. Eu não tinha a menor idéia de como se fazia uma casa. Ensinaram-me.
Com um barbante, desenha-se no chão o formato da casa. Depois, na linha do barbante, cavam-se os alicerces, levantam-se as paredes. Depois é só fazer o telhado e cobrir o chão com lajotas. Caiam-se as paredes e pintam-se as janelas de azul. A casa fica linda e todas as pessoas se beijam. As mais íntimas, na boca. Então, faz-se a cerca de casuarina e plantam-se os coqueirinhos no derredor da casa. Compram-se os móveis, a geladeira, as roupas de cama e mesa, as louças, os talheres e as redes. Aí, habita-se a casa. Com as melhores intenções. Feito isto, a família se reúne e todos se olham, com os olhos em brasa.
As redes ficam no terraço, vazias. Os peixes pulam na água para divertir as crianças, crentes que elas ainda estão.
Continua chovendo. A cal das paredes escorre sobre os canteirinhos de "marias-sem-vergonha". O azul das janelas esmaece. Quem passa ouve vozes, lá dentro. São fantasmas, cantando uma canção que não viveu:

Somente nós
Nós dois, nosso amor e a vida...

Triste de quem tem memória. Envelhece antes do tempo. Chora sem ter de quê (pobre chora à toa). Dramatiza tudo.
Continua chovendo. Uma chuva que se adensa nos corações e a eles lembra o que era para esquecer.

(Sábado, 10/10/1964)
CPI

Nestes últimos dois anos, quantas CPI(s) já se organizaram no Brasil? E em alguma delas já ficou provado que alguém roubou, os mandou roubar, matou ou mandou matar? E quem está na cadeia por causa de uma CPI?
Cartas para este cronista, na redação de O jornal.

27/10/1963
Uma Velhinha

Quem me dera um pouco de poesia, esta manhã, de simplicidade, ao menos para descrever a velhinha do Westfália (dez e meia, onze horas), e tudo daquele momento em diante começa a girar em torno dela. Tudo é para ela. Quem nunca antes viu, chama o garçom e pergunta quem ela é. Saberá, então, que se trata de uma velhinha "de muito valor", professora de inglês, francês e alemão, mas "uma grande criadora de casos".
Não é preciso perguntar de que espécie de casos, porque, um minuto depois, já a velhinha abre sua mala de James Bond, onde retira, para começar, um copo de prata, em seguida, um guardanapo, com o qual começa a limpar o copo de prata, meticulosamente, por dentro e por fora. Volta à mala e sai lá de dentro com uma faca, um garfo e uma colher, também de prata. Enquanto asseia as "armas" com que vai comer, chama o garçom e manda que leve os talheres e a louça da casa. Um gesto soberbo de repulsa.
O garçom (brasileiro) tenta dizer alguma coisa amável mas ela repele, por considerar (tinha razão) a pronúncia defeituosa. E diz, em francês, que é uma pena aquele homem tentar dizer todo dia a mesma coisa e nunca acertar. Olha-nos olhos e sorri, absolutamente certa de que seu espetáculo está agradando. Pede um filet e recomenda que seja mais bem do que mal passado. Recomenda pressa, enquanto bebe dois copos de água mineral. Vem o filet e ela, num resmungo, manda voltar, porque está cru. Vai o filet, volta o filet e ela o devolve mais uma vez alegando que está assado demais. Vem um novo filet e ela resolve aceitar, mas, antes, faz com os ombros um protesto de resignação.
Pela descrição, vocês irão supor que essa velhinha é insuportável. Uma chata, Mas não. É um encanto. Podia ser avó da Grace Kelly. Uma mulher que luta o tempo inteiro pelos seus gostos. Não negocia sua comodidade, seu conforto. Não confia nas louças e nos talheres daquele restaurante de aparência limpíssima. Paciência, traz de sua casa, lavados por ela, a louça, os talheres e o copo de prata. Um dia o garçom lhe dirá um palavrão? Não acredito. A velhinha tão bela e frágil por fora, magrinha como ela é, se a gente abrir, vai ver, tem um homem dentro. Um homem solitário, que sabe o que quer e não cede "isso" de sua magnífica solidão.

16/10/1964
Horóscopo de Antônio Maria

Estudamos muito e só agora - eu e Reinaldo Dias Leme - conseguimos aprontar o primeiro guia astrológico prático e sentimental das pessoas indefesas, exatamente nesta quarta-feira, 2 de dezembro, data eleitoralmente histórica. Recebei-o com o mesmo carinho com que o fabricamos.


* Entre 21 de janeiro e 18 de fevereiro Signo: Necroton

Dia apropriado para se tomar bebidas com tampinhas;

Pela manhã, óculos escuros
A tarde será imprópria para se abandonar mulher e os filhos;
À noite, carta anônima.

* Entre 19 de fevereiro e 20 de março Signo: Goiaba

As pessoas desse signo não devem viajar de urubu.

Pela manhã, frieiras, argueiros e terçóis;
A tarde será propícia à caxumba;
À noite, pazes com Fernando Lobo.

* Entre 21 de março e 20 de abril Signo: Furúnculo

Manhã imprópria para mandar roupa pro tintureiro;
A tarde será ótima para freqüentar casas suspeitas;
À noite, palavrões.

* Entre 21 de abril e 20 de maio Signo: Eustáquio (se possível, Duarte)

Dia apropriado para se tomar bebidas de rolha.

Pela manhã, jóias, relógios e artigos de presente;
A tarde será desfavorável nas discussões sobre terceira dimensão;
À noite, cadeia.

* Entre 21 de maio e 22 de junho Signo: Arteriosclerose


Manhã esplêndida para batidas (de limão e automóvel);
Pela tarde, espinhas cravos e manchas;
À noite, ligação errada.

* Entre 23 de junho e 22 de julho Signo: Lagosta


Pela manhã, pancadas de ar, cobranças e diferenças no troco;
A tarde será boa para se espiar pelo buraco de fechadura;
À noite, azia.

* Entre 23 de julho e 23 de agosto Signo: Topaze


Dia impróprio para se ouvir a Rádio Relógio;
A tarde será péssima para apartar briga de urubu;
À noite, Eli, Danilo e Jorge.

* Entre 24 de agosto e 22 de setembro Signo: Robalete


Dia sujeito a acidentes com isqueiros;

Pela manhã, ao levantar, uê, uê, uê, paisano;
A tarde será melhor, com sorrisos à la João Dias;
A noite... é grande.

* Entre 23 de setembro e 22 de outubro Signo: Cexim


Pela manhã, sucessos com palavras cruzadas;
À tarde, desavença, na matinée, com o vizinho de cadeira;
A noite será imprópria para se ouvir o noticiário da Agência Nacional.

* Entre 23 de outubro e 22 de novembro Signo: Marijô


Pela manhã, enjôos de barca, com dentista em Niterói;
A tarde será promissora para as pessoas de mau hálito;
À noite, ninguém me ama.

* Entre 23 de novembro e 21 de dezembro Signo: Odeon


Manhã boa para fazer vales, fumar charuto em jejum e cantarolar Prenda Minha;
À tarde, unha encravada, com imensas favorabilidades para as pessoas que fazem trocadilhos;
À noite, brigadeiro, brigadeiro!

* Entre (sem bater) 22 de dezembro e 20 de janeiro Signo: Jambalaia


De manhã, moscas, pulgas e percevejos;
À tarde, clordana, DDT, roterona, pirétro e tiocianatos;
À noite, sonhamos.

02/12/1953
Sede

A gente não repara, mas existem poucas coisa tão gostosas quanto uma sede bem nutrida e uma bebida gelada para saciá-la. Sedes sensacionais são aquelas dos que jogam futebol na praia, suam, correm, entram no mar, tomam mais sol, comem sal.... e, depois bebem uma dessas cevejas de serpentina, que descem arranhando a garganta. Também a sede da ressaca, tão violenta, que acorda a gente e acaba com todo o estoque de água mineral da geladeira. A do operado de apendicite também não é sopa.
Há dias, veio um nortista do Recife e eu o chamei para dar umas voltas. Ele me deu esta linda resposta: "Vou nada. Daqui eu vou tomar dois 'assovios de cobra' - maneira nova de se chamar cachaça - como uma feijoada, me espicho, durmo e, quando acordar, vou ter uma sede que eu não dou por dez contos!".
Gerente do Banco

Olhando-me bem no fundo dos olhos, disse-me, claramente, que não era mais possível esperar. Quase lhe entrego a tesoura, para que ele cortasse a minha singularíssima pessoa. E pensei na sublime categoria dos homens que não podem esperar. Vi a fila dos lotações - um hino à espera... a procissão dos homens dentro da vida, nada mais que uma espera, uma maneira de fazer hora, enquanto a mulher da foice vem em caminho. Vi-me esperando, desde que nasci, inclusive a meia hora que esperei para ser atendido por aquele homem, que fazia uma força enorme para ser ríspido e não ceder ao meu triste olhar de indefensável. Vi-me andando, desde menino, esperando e andando mais, com o sacrifício dos meus joelhos juntos, que me fizeram gastar uma fortuna em polvilhos, contra rachaduras e irritações da pele. Mas, quando o gerente sentiu que havia vencido, que seria uma covardia estar catucando a minha ferida, resolveu perguntar pelas minhas cantigas, queixou-se da dificuldade com que tem lutado para comprar o "Ninguém me ama" e perguntou qual seria a próxima. Disse-lhe, com o meu jeito mais triste, que a próxima não haveria; que um homem, em meu estado, não pode fazer versos e melodias. Todo gerente, no coração, é um bom sujeito. Renovei a promisória.
Gurilândia

Quando me falaram desse programa de TV, fiquei louco para assisti-lo, porque pensei que era um show só de gorilas. Mas, não. É um espetáculo só de crianças - lamentável programa, onde meninos e meninas, de menos de 10 anos, dançam em trajes de rumba. Apresentam duas garotas, com as coxas e a barriguinha à mostra, fazendo os mesmos requebros da senhora Antonieta Pons. Ora, que dona Pons mostre as coxas, a barriga, mostre muito mais até, está certo. Todo mundo gosta de ver o máximo de mulher, num mínimo de roupa. E tanto é verdade que gostamos de ver mulheres, que os médicos, não satisfeitos, ainda abrem a boca de suas clientes para espiar o que elas têm dentro, à guisa de exame de amígdalas. Mas, menininha seminua, com meneios sensuais de rumba é um processo de deformação da criança que dança e da que assiste. Não escrevo estas coisas pelo fato do diretor da TV não gostar da minha carne e minha carne não gostar da dele; não falo em nome da rixa recente entre os Chateaubriand e os Maria - estou apontando uma lamentável fórmula artística de programa infantil, à base de ignorância, burrice e falta de sensibilidade. É possível - porque o mundo anda tão virado - que milhares de mães de família venham pelos jornais protestar contra o que estou escrevendo, numa expressiva moção de solidariedade ao autor de "Gurilândia'. Tudo é possível. Mas, a rumba, em si, já é uma chatice... e menina seminua, requebrando feito mulher de cabaré, é uma malvadez. Dança de menino é "a dança da carranquinha, uma dança deliciosa, que pondo o joelho em terra, a moça fica formosa'.

Início dos anos 50.
Canção de Homens e Mulheres Lamentáveis

Esta noite... esta chuva... estas reticências. Sei lá.
Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida? De dizer o nome? De lembrar, sequer lembrar, o rosto?
Quem seria capaz de contar a história? De chamar o maior amigo, ou melhor, o inimigo, e dizer:

- Estou me sentindo assim, assim, assim...

A humanidade está necessitando, urgentemente, de afeto e milagre. Mas não sabe onde estão as mãos, nem os deuses. E, quando souber, vai achar que as mãos e os deuses são de mentira. Os olhos de todos estarão cheios de medo, os olhos das jovens raparigas, os olhos, os braços, o ventre e as pernas das jovens raparigas, receosos de pagar com os quefazeres do sexo.
Nesta noite, com esta chuva, as jovens raparigas não são importantes. Apenas uma tem importância. Mas quem seria de todo livre e descuidado, a ponto de dizer o seu nome? De pensar o seu nome?
Você diria em público o nome da Amada? E suportaria ouvi-lo? Não, não; o nome dela, em sua boca ou na dos outros, é tão proibido como sua nudez (dela). Não há diferença.
E por que você não se transforma no homem banal, que se encharca de álcool, para apregoar a desdita? Seria mais fácil. Talvez alguém lhe chamasse de porco e você revidasse com um soco no rosto, um só rosto, de todo o Gênero Humano. Viria a polícia, que simplifica tudo, generalizando. E tudo se transformaria em notícia: "Preso o alcóolatra, quando injuriava e agredia a Família Brasileira, na pessoa de um sócio do Country".
Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca.
Uma pergunta, que não tem nada a ver com o corpo desta canção. Quem saberia discriminar o ódio do amor? Ninguém. Os psicologistas e analistas têm perdido um tempo enorme.
Ontem à noite, voltando pira casa, senti-me espectador de mim mesmo. E confesso que, pela primeira vez, não achei a menor graça. Saíra, pela primeira vez, de óculos e o porteiro do edifício me recebeu com esta agradável pergunta:

- Que é que houve? O senhor está mais velho?

Tirei os óculos e, fitando-o, esperei as desculpas. Mas o homem continuou:

- O que é que houve? De ontem para cá, o senhor envelheceu.

Tinha pensado que, sem os óculos...
Não estou escrevendo para ninguém gostar ou, ao menos, entender. Estou escrevendo, simplesmente, e isto me supre: contrabalança, quando nada. Esta noite, esta chuva - e poderia escrever as coisas mais alegres, esta noite. Neruda, coitado, as mais tristes.
Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida.

9/10/1964
Despedida

Permite que eu deseje, agora, tomado e vencido pelas urgências que de mim exigem, um canto de sono e preguiça onde ainda não se tenham inventado o telefone e o relógio. Deixa que eu seja pessoal em mais uma crônica para, ao medo das tarefas que se me impõem, querer, ardentemente, que não tirem do rol das pessoas úteis, que me esqueçam e que me abandonem, que me larguem, enfim, onde seja lícito viver ignorado e despercebido. Sinto-me vazio de poesia, esgotado de um resto de doçura que tanto prezava e, coagido pelos que revendem minhas idéias, dói-me o tempo e o esforço gastos, os ardis e os truques que emprego para arrumar palavras e construir frases de efeito. Lamento enganar a todas. Permite que eu deseje, agora, um silêncio que me contagie de tristeza, uma calma boa e definida para, num momento espontâneo e sossegado, escrever as grandes definições, as palavras que me envaideçam, os versos e as cantigas que me elevem, querida, à glória e à resolução do teu desmesurado amor. Através dessa janela vejo coisas que, antigamente, eram poderosas e fecundas. O céu repete o azul de tantas tardes acontecidas em maio, as últimas quaresmeiras do verão agonizam na saia do morro, os homens martelam a pedreira... e eu não sinto vontade de rir ou de chorar. Na rua, arrastando uma corrente eterna e incompreensível, passa mais um caminhão da Standart Oil... e eu não sinto nenhum vexame político, nenhuma revolta social. Por isso e pela descrença que em meu espírito se acentua, permite que eu deseje ser só - ou teu somente - num lugar do mundo onde os gritos não tenham eco, onde a inveja não ameace, onde as coisas do amor aconteçam sem testemunhas. Livrem-me da pressa, das datas, dos salários e das dívidas e a todos serei agradecido, num verso submisso. Livrem-me de mim, de uma certa insaciabilidade que apavora e de todos serei escravo numa humilde canção. Permite que eu só queira, agora, esse canto de sono e preguiça, onde não necessite dos atletas, onde o céu possa ser céu sem urubus e aviões, onde as árvores sejam desnecessárias, porquê os pássaros se sintam bem em cantar e dormir em nossos ombros.

31/05/1963
Domingo

O domingo, que, há muitos anos, vinha sendo o meu dia sem graça, fez-me redescobrir o seu bom ar e convenceu-me de sua alegria, como na meninice. Vou a pé por uma rua de Ipanema, vou andando sozinho, sentindo a tarde fresca e me interessando pelas pessoas que encontro. O prazer físico de andar e estar só. O conforto de estar vestindo urna camisa muito maior que eu, só a camisa, sobre uma calça grande também e desvincada. A maravilha de não precisar falar.
Passa urna mulher bonita, alta, com um "pêlo-de-arame" pela corrente. Mais adiante, uma outra espera alguém, que a levará para uma mesa de biriba, ou que seja para uma cartada mais séria. Depois, um jovem casal de mãos dadas, rindo alto, segurando-se um no outro, para não cair da gargalhada. Um senhor com uma máquina fotográfica, à bandoleira. Aquele antigo ar dos domingos, voltando da infância, facilitava-me a intimidade que cada homem deve manter consigo mesmo.
As crianças são íntimas de si mesmas. Depois, quando vão engrossando a voz e criando buço, começam a fazer-se cerimônia. Às vezes, entre os trinta e quarenta anos, perderam tanto os pontos de referência que a noção dos pés e das mãos é um acontecimento estranho e transfigurado. Passa-se a não dizer, e sim a ouvir as próprias palavras. Pobre de quem se ouve!
Que bom não ter agora com quem falar. Foi sempre a palavra que enganou todas as coisas. Enquanto estou calado, podem fazer de mim todas as suposições erradas e absurdas. Mas não fui eu que menti ou enganei. Há pessoas que nos obrigam a mentir. São as que nos pedem aqui e ali um julgamento que lhes seja agradável. Alguém seguro de si não nos pede jamais uma opinião sobre o seu feito. Espera, ou pouco se importa com a idéia que estamos formando a seu respeito.
Os homens que não se confiam perguntam-nos constantemente: "Você não acha que agi muito bem? Você, em meu lugar, não faria exatamente a mesma coisa?". E nunca duas pessoas reagem exatamente da mesma maneira em face do mesmo acontecimento. Porque não existem duas pessoas rigorosamente iguais. Na melhor das hipóteses, uma teria a gravata de outra cor.
Que bom ser domingo outra vez, depois de trinta anos!
Entra uma moça clara, da idade das outras, e senta à mesa em frente à minha. Jovem. Linda. E eu, não.
21/5/1957
O Barófilo

O meu médico, amigo e leitor, Nelson Vidal, acaba de me dar mais um diagnóstico: sou um barófilo, isto é, sofro influências e mutações, de acordo com a pressão atmosférica. Gosto do frio (é verdade) e, com o frio (diz ele), fico mais inteligente. Vidal acredita na minha inteligência e está certo de que eu limiaria as raias da genialidade, se morasse num clima frio.
A coisa não é bem essa. Na realidade, sou um burrinho esforçado, ousado mesmo e, sob a ação das temperaturas mais amenas, sou visitado por inspirações bem razoáveis. Na Europa, por exemplo, na primavera, no outono e no inverno, sou capaz de escrever uma crônica. quase igual às que o Braga fazia, em quatro ou cinco minutos. Como também uma música, com letra e tudo, sem precisar puxar por mim.
Mas aqui, de um modo geral, sou burro. Não tanto quanto a média local, mas sou burro. A verdade é que o burro no Brasil passa, pois a burrice e, particularmente, a besteira são condições exigidas ao jornalista, antes de botar os pés na redação e as mãos na máquina de escrever. É imprescindível ser-se burro, em matéria de arte, religião e política, principalmente. Fora da redação e longe da máquina, o burro, se souber manter um bom tempo de silêncio, durante as conversas, criará fama de "talento calado". É muitas vezes repetida, como elogio, esta observação: "Enquanto falávamos, fulano, que é muito esperto, não disse uma só palavra".
Ora, o homem que não fala é aquele que raciocina com dificuldade. O que não ri, então, carece de qualquer possibilidade de raciocinar. Quando vejo uma pessoa muito séria e muito calada, procuro sair de perto, porque dentro dela efervescem, num só caldo, burrice, amargura, inveja, ódio e avareza.
Hoje é um dia, com o perdão da palavra, fresco. Um sol magnífico, e uma brisa que me está entrando camisa adentro, enquanto escrevo esta crônica. Habito uma cidade governada por um homem trabalhador, realizador, que está sempre em Brocoió, Petrópolis e São Paulo. Sou tido e havido como comunista eu, Dom Hélder e Tristão de Athayde. Na rua, as mulheres fenecidas se cutucam e cospem à minha passagem. Os homens pálidos e ricos não têm coragem para tanto, mas me rogam surdas pragas. E por quê? Por nada.
Então sou feliz, porque, como bom barófilo, "não quero nada do acaso, senão a brisa na face". O verso não é meu e, sim, de Fernando Pessoa, que nasceu em Lisboa, em 1888, e morreu em Lisboa, em 1935. O maior poeta da língua portuguesa, maior que Camões, foi odiado em vida, justamente porque não queria nada do acaso, senão a brisa na face.

06/11/1963
Carlos Drummond de Andrade

Eu nunca tinha visto Carlos Drummond de Andrade. Eu o amava, mas nunca o tinha visto e alguns eram seus amigos.Uma vez lhe telefonei pedindo lincença para musicar uns versos seus; licença que ele me deu correndo, encurtando a conversa. Depois, quando estive mais doente, lendo seu livro de crônicas A bolsa ou a vida, porque suas crônicas me fizeram prazer ou, simplesmente, porque eu estava doente, mandei-lhe um bilhete contendo o meu carinho, onde, é bem possível, havia, houvesse - discretamente, disfarçadamente - as minhas despedidas. Sei lá, tudo o que eu dizia naqueles tempos era adeus.
Mas domingo, de tarde, eu passava por Ipanema, quando vi Carlos Drummond de Andrade! Ia pela calçada da praia, andava, parava, andava de novo, com uma pressa enorme de não sair do lugar. Parei meu carro, apeei-me e caminhei até ele, estendendo-lhe a mão.
- Eu sou Antônio Maria e tinha uma vontade enorme de conhecê-lo... (fui por aí, feliz e humildemente).
O poeta, como todos os homens decentes, ficou muito encabulado. Mas eu entendo como é aflitivo conhecer mais uma pessoa. Ser conhecido por mais uma pessoa. A vida tem um dia em que a gente diz: "Chega, vou parar aqui. Mesmo que seja no prejuízo". E não compra o segundo "cacife". Ademais, a minha humildade era ameaçadora. Drummond tinha todo o direito de imaginar: lhhh!... esse homem é capaz de se meter em minha casa.
Quem sabe, um dia irá me telefonar, ihhh!...
A minha presença é, em si, desagradável. Eu seria, pela aparência, o homem que se meteria em casa de Drummond e lhe perguntaria com a mais ingênua agressividade:

- Drummond, entre Verlaine e Rimbaud?

Ou então:

- Drummond, você não acha que o Vinícius de Moraes já foi mais Vinícius de Moraes?

E, quem sabe, eu perguntasse:

- E se você fosse à Lua e pudesse levar três pessoas, que pessoas você escolheria? Olha, família não vale, Drummond!

O poeta Drummond é o homem que se porta com perfeição no primeiro encontro. Timidamente, com aquela cara de quem deseja, com toda razão, que seja o primeiro e último. Drummond, como toda pessoa psicologicamente equilibrada, acha que todo primeiro encontro deveria ser o último.
Que maravilha haver ainda gente que se dê ao respeito! Não sei de ninguém que se dê tanto ao respeito quanto Carlos Drummond de Andrade! Com a mulher, os filhos, os netos, pode (e deve) ser um tarado. Mas as outras pessoas, os intrusos, os aparteadores de suas caminhadas pela praia, com esses, todo retraimento é pouco.
Quanto a mim, poeta, ganhei meu dia. A frase tem que ser esta, desculpe. Ganhei meu dia. Tome um abraço.

3/7/1963

Frases Soltas

Sobre Ary Barroso:
"Ninguém gosta do Ary mais do que eu. Reconheço-o como sendo o nosso maior compositor popular... mas compositor de melodias. Suas letras nem sempre são bonitas. No Risque, aquela história da 'beleza que se esfuma como a brancura da espuma', eu sei que podia ser pior mas não é de bom gosto."


"Angústia é o resultado da perda de intimidade de um homem
consigo mesmo."

"É muito melhor estar mal acompanhado do que só. A única vantagem da solidão é poder entrar no banheiro e deixar a porta aberta."

"É perigoso ter muitas mulheres. Quem tem seis, por exemplo, tem cinco oportunidades de ser passado para trás."

"Gente má dorme em posição de sentido."

"Se me encontrar dormindo, deixe. Morto, acorde-me."

"Os homens tristes geralmente fazem graça."

"No Brasil a gente só é inimigo de quem não conhece. Depois que conhece fica amigo."
Evangelho Segundo Antônio
Ora, se um cego guiar outro cego, cairão ambos no barranco. (J. Cristo)

E com vocês, por mais incrível que pareça, Antônio Maria.

Lembram-se dele? Arão gerou a Aminadabe, Aminadabe a Naasson, Naasson a Salmon, Salmon a Dona Diva, que concebeu Antônio, por obra e graça de Inocêncio, num entardecer chuvoso do Engenho Pontable.

As ovelhas, em silêncio, desciam a ladeira dos Encantos, tangidas por um pálido pastor agraciado pelo impaludismo e a esquistossomose.

Em março nascia Antônio e, após o momento dramático em que lhe foi cortado o cordão umbilical, precisou adquirir oxigênio por seu próprio esforço (a respiração) e seu alimento, pelo ato da lactação. Coitado!

Como sabeis, a lactação não é simplesmente o prazeroso processo de sugar (chupar) leite e, sim, um período transitório entre a total dependência e a separação, também total, entre o filho e a mãe. E que fazia Antônio? Agarrava-se, amorosamente, a sua confortável "mater", vivendo, em desespero, os últimos dias do contato geral com o ser materno.

Isso aconteceu a todas as crianças, exceto a Vinicius de Moraes, que foi sempre amamentado e amado pelas jovens mães dos outros.


Com vocês, Antônio, após dois meses sem escrever uma só palavra. Volta da infância, onde tudo (pessoas, coisas e paisagens) estava irreconhecível. A mãe tinha olhos azuis e cabelos estrangeiros. O pai dançava surf e as minhas irmãs liam Carlos Heitor Cony, todas as manhãs, em jejum. Era preciso voltar. Inventar uma desculpa, e voltar.

- José Aparecido está me esperando à porta do Rond Point. - Quem é José Aparecido?... perguntaram em coro. - Ah, não sabem? O único descendente direto da senhora Aparecida, um dos esteios da revolução. trata-se do "ex" mais "futuro" deste país. Tem 28 anos e é de Conceição, Minas Gerais S/A.

Despediu-se, Antônio: tchau, tchau, tchau... e se pôs em viagem, a caminho de Fernando Mendes. Da infância trouxe frutas. Todas deliciosas. Abacaxis, para os banqueiros de suas relações. Sapotis para as moças, pouco moças, suas conhecidas. Mangas, para os poetas. Bananas, para psicanalíticos militantes nesta praça.

Reina, Antônio, em Fernando Mendes. Um delicioso apartamento, de quarto, sala e piscina. Ocupa o dito Antônio, pela primeira vez, uma cama inteira, e isto muito lhe dificulta o levantar.

- Onde estão meus braços? - pergunta Antônio de manhã. E a perna esquerda? E a cabeça?

Para quem ocupa uma cama inteira pela primeira vez, não há nada mais difícil que encontrar a cabeça de manhã.

A vida, em Fernando Mendes, é uma delícia. Uma generosa falta d'água, só interrompida às quintas e domingos, das sete às nove, nos livra desse burguesíssimo hábito tropical chamado banho. A ausência total de livros nos descompromete de maneira definitiva com a cultura.

O homem sempre perdeu imenso tempo lendo e tomando banho. Quantas viagens, quantos apartamentos, quantos passeios no bosque, quantos ternos de casimira teria Antônio feito não fossem as obrigações de chuveiro e Machado de Assis.

Mas come-se maravilhosamente em Fernando Mendes. Bobós de camarão, fritadas de bacalhau, sarapatéis, arroz de carreteiro, feijoadas sensualíssimas!

São Mateus é contra o comer, e tanto que em seu Evangelho pergunta "Não compreendeis que tudo o que entra pela boca e desce pelo ventre e, depois, é lançado em lugar escuso? Mas o que sai da boca vem do coração" etc. etc.

Um dia, São Mateus irá comer comigo um sarapatel apimentado, feito, exatamente, com o escuso ventre dos porcos. As vísceras. No dia seguinte terá Mateus que acrescentar ao seu Evangelho uma emenda irrecorrível: "Pensando melhor"...

Cá estou eu a escrever tolices. Com imensa facilidade - convenhamos. Vivemos dias em que é preciso escrever tolices. Há uma dor preponderante em cada coração. A humanidade já não está escolhendo entre o matar-se e o continuar vivendo. Vacila, apenas, em se a melhor solução será o abrir o gás ou tomar uma dose definitiva do sonífero mais em moda.

Então escrevamos. Escrevamos tudo sobre o nada. E nada, absolutamente nada, sobre o "tudo isto", que são as causas das nossa atitude cabisbaixa, face a Deus e às autoridades militares.

Após dois meses sem escrever uma só palavra, cá estão estas que, embora não pareça, dizem tudo. Bom dia, amigos. Bom dia, inimigos. Amai-vos e odiai-me. Trabalhai. Trabalhemos. Mas não nos esqueçamos de que o grande esforço (físico ou mental), que vai despender um trabalho qualquer, tem que ser estabelecido mediante um estudo de nossa capacidade de rendimento e de resistência à fadiga. Lembrai-vos, outrossim (sempre tive imenso desejo de escrever "outrossim"), de que todos os prazeres da solidão, embora lícitos são inconfessáveis.

Com vocês, por mais incrível que pareça, Antônio Maria, brasileiro, cansado, 43 anos, cardisplicente (isto é: homem que desdenha do próprio coração). Profissão: esperança.

23/07/1964