Do Diário III (com o não consultado apoio de
O Menino)
11 de março de 1957
Escrevi 10 páginas de humorismo para rádio. Com o desgosto de sempre. Não me acho engraçado. Para o rádio, ainda uma crônica sobre falta d’água, lida po Luiz Jatobá. Escrevi para O Globo umas notas tomadas em Petrópolis. Eis alguns trechos, que me parecem conter alguma verdade: “Nenhuma emoção é a mais forte que a de entrar no quarto da amante que dorme. Sentir-lhe o cheiro e o calor no ar do quarto. Deitar ao seu lado, se possível, bêbado. Tocar-lhe a pele poderosa. Nela, encontra intensificação. E possuí-la do modo mais gostoso, sem outras palavras que não sejam as dos rudes vivas do amor. Depois, dormir como na morte, para despertar ao peso dos deveres aflitos e cumprir.
O mistério indecifrável de uma mulher a que se volta adiante:
“Só se ama uma mulher quando lhe tememos a pelo e o cheiro. Quando a idéia de sabê-la em outra cama nos torna capazes de matá-la ou perdoá-la. Geralmente, matá-la e perdoá-la são duas coragens difíceis. Fica-se simplesmente...”
Depois:
“Ama-se, angustiadamente, o vestido pendurado da amante ausente. O vestido íntimo e caseiro. E haverá mais verdade na companhia de tal vestido (morto como um vestido) que, adiante, nos braços de uma nova mulher. Os sentimentos das nossa constantes paixões! Enlevo, carinho, generosidade, sacrifício. Infelizmente, porém, por mais que se tenha feito para negá-lo, o verdadeiro amor é aquele que nos abrange e nos vence como um vício. Nunca se diga que o amor é fácil, antes de vivê-lo como um vício,”
Ainda:
“A carne não mente. Apesar da má companhia em que vive, ainda não chegou à perfeição desse erro. Vivamos, em vez das palavras. Seremos livres e completos.”
“A água é bela e jovem. Ninguém a envelhecerá. Ninguém a prenderá para sempre.”
“Quantos séculos e quantos poetas deverão passar, para que se digam todas as verdades?
Quando se assistirá toda a intimidade de um nosso semelhante, sem que ele e nós nos sensibilizemos? Em que dia se será SÓ, em companhia de outra pessoa?
O homem vive em defesa constante – tanto que só se saberá verdadeiramente de um homem depois de morto, quando forem vestir.”
Depois, escrevi sobre a preguiça e acho que não disse nada que fosse ao menos agradável de ler. SOU UM HOMEM PREGUIÇOSO. E , talvez, para justificar-me, acabei a tal nota neste tom meio espalhafatoso:
“Só me exalta a posse legítima e afim.”
Maria Rita me alegrou, porque me esperou com uma “exposição de seus quadros”. Desenhou tudo sobre influência de Miró. Contou-me (rindo muito) que a freira do colégio (São Paulo) lhe exigiu, para traje de ginástica, uns calções até aos tornozelos, acabando em elástico. Ela, Maria Rita, deveria arregaçá-los até os joelhos, porque (Maria Rita imita a freira) “Vai ficar muito gracioso.”
Alegra-me isto da minha filha estar começando a saber achar graça.
Saí à noite e paguei CR$ 11.500,00 de dívidas. Bebi muito e de graça. João Condé animou-me a publicar um livro de crônicas. José Olympio o editaria. Pela primeira vez animei-me a selecionar velhas crônicas. Mas terei que reescrevê-las. Não suporto ler o que escrevi há uma semana. Sou preguiçoso e, por isso, humilde. Certamente, esse livro ainda não será agora.
Caí, como sempre, no Sacha’s. Lá não ia há uns 15 dias. Bebi numa mesa de deputados da UDN. Nenhum tinha o menor interesse para mim. Lá estava Vitor Costa, um homemtriste e vago. Quero-lhe bem.
Fui beber na mesa en que estavam Lana Turner, Jorginho Guinle e Luiz Santos Jacinto. Lana Turner está envelhecida e sabe disso, porque se defende muito, fazendo olhos, bocas e perfis. Mas, ainda assim é uma mulher. Jorginho me disse (com um sem-entusiasmo muito bem fingido) que já dormira com ela. Talvez seja
Verdade. Em seu lugar ,eu não contaria. (Eu acho que contaria – perdão.) Mas , se contasse, seria com indisfarçável orgulho. Não saberia comer uma mulher de certa importância sem comer-lhe o nome, com alguma honra. Mas meu encontro com Lana Turner não chegou, ao menos, a ser agradável.
Depois, à minha esquerda, sentarm-se Anita Ekberg, o marido e um brasileiro que falava inglês. Eu estava bêbado. Só vi mesmo que era Anita deois que ela saiu. É um mulherão. Uma enfermeiraça. Mesmo assim, bela.
O brasileiro que falava inglês descompôs o maître e os garçons. Por nada . Queria brilhar. Pagou a nota, tirando muitos contos de réis do bolso. Olhava-me, se quando em quando, para ver que impressão me estava causando. Um cretino a mais.
Jantei com o Barão Schiller. Estava triste porque perdera dinheiro no jogo. Mais ainda porque , como sempre, não tinha mulher. Levei-o a casa. No caminho, achou-me nervoso. Eu não estava nervoso... e sim bêbado, sem nenhuma infelicidade especial.
Antes, sentara à mesa com Didu, Tereza, Dirceu Fontoura, Dana Mendonça e Ari de Castro. J. Guinle, havia pouco , me dizia Ter dormido com Lana Turner.
Gente boba e vazia. Vaidosos, frívolos, ricos. Gosto, porém, de conhecê-los casa vez mais, para ver até onde chega sua organizadíssima miséria humana.
Lamento, agora, não Ter começado estas notas há mais tempo. E mais ainda, saber que irei interrompê-las um dia.
A melhor impressão dessa noite quem me causou foi Célia, filha de Odilon Braga. Bonita, queimada de sol, mulher. Estava de branco.
Queixou-se de que eu nunca a citei em minhas crônicas. Gostaria de que se queixasse por brincadeira. Porque será que as pessoas, as mais inteligentes, gostam tanto de ler seus nomes no jornal. Se fosse por um motivo mais digno-um livro, um quadro, uma música - eu entenderia, ou melhor, eu entendo e acho normal. Mas a simples citação, sem nada de melhor que a justifique? Compreenderia ainda se minha citação fosse consagratória. Mas não, sou um cronista, nada mais que um cronista frívolo; quer queira, quer não, pertencente à pior safra do jornalismo brasileiro. Enfim, que seja tudo pelo amor de Deus.
Com exceção da quixa, Célia Braga me fez muito bem.